Vida dura para os Bancos

 

No dia 8 de agosto de 2016, um documento divulgado em Londres pelo CMA (Competition and Markets Authority), o órgão equivalente ao nosso CADE, mudaria para sempre o mercado bancário no Reino Unido, com reflexos no mundo todo.
 
O documento, com apenas 15 páginas, mostrava logo no título o impacto que pretendia provocar no mercado: “Making the banks work harder for you” (em tradução livre, algo como “Fazendo os bancos trabalharem mais duro por você”). Na primeira página, o CMA dava o tom da conversa: “os bancos maiores e mais antigos, que ainda detém a grande maioria do mercado de varejo, não precisam trabalhar duro o suficiente para conquistar e manter clientes, enquanto é difícil para os pequenos e novos entrantes para atrair usuários. (…) O setor não é inovador ou competitivo como deveria ser.”
 
A iniciativa vem na esteira de outras regulamentações, principalmente a PSD2, na Europa. Após um diagnóstico do segmento e de como ele está estruturado, o CMA passa então para os “remédios” sugeridos, todos embaixo do guarda-chuva do Open Banking. Open Banking significa a abertura de dados transacionais e cadastrais dos clientes para que terceiros confiáveis os usem, mediante autorização do cliente, por meio de conectores (APIs) padronizados e simples. No documento, o CMA especificava que o principal objetivo era gerar recomendações confiáveis e personalizadas para os clientes. Por exemplo, a partir do acesso aos dados da conta bancária do cliente, um outro banco pode oferecer uma conta corrente com custos menores; ou um empréstimo com juros menores para quitar uma dívida; ou uma operadora de telecom pode oferecer um plano de dados e voz mais interessante para o usuário; ou uma seguradora pode oferecer um seguro residencial mais barato.
 
No dia 13 de janeiro, há cerca de duas semanas atrás, entrou em operação a primeira fase do “tratamento”. Os primeiros “remédios” (APIs) começaram a funcionar, com dados transacionais de contas corrente. Em paralelo, o governo britânico patrocinou, nos últimos meses, um concurso de comparadores de contas corrente. O objetivo era estimular os usuários a autorizar terceiros a acessar suas contas. Dando acesso a estes comparadores, eles poderiam reunir uma massa significativa de dados, que lhes permitiria comparar as taxas cobradas pelos diversos bancos, nas diferentes modalidades de contas. E, assim, fazer recomendações bastante assertivas sobre como economizar nas taxas.
 
O primeiro dia de funcionamento foi marcado na imprensa em geral por matérias bastante conservadoras, que focaram nas ameaças de segurança decorrentes da abertura dos dados. Os periódicos The Financial Times, The Guardian, The Telegraph, The Times e Daily Mail levaram à população uma visão bastante ameaçadora, induzindo à inibição do uso extensivo da novidade nos primeiros dias.
 
Nos dias seguintes, a comunidade Fintech conseguiu apoio e espaço em outros veículos, como CNBC, Information Age, Engadget, Forbes e Business Insider, que deram matérias positivas, ressaltando os benefícios desta nova era do segmento financeiro e dando visibilidade aos mais de 40 players que pediram habilitação para se tornarem TPPs (terceiros autorizados).
 
O fato é que a história deu um passo, que não volta mais. As empresas que quiserem usufruir destas APIs, sejam fintechs, empresas de tecnologia, varejistas, seguradoras ou outras organizações, precisarão ser conscientes, responsáveis e competentes quanto às questões de segurança da informação e compliance com o uso dos dados, para que os usuários adquiram confiança e vejam o valor desta nova realidade, que está transformando para sempre a indústria bancária.