Entrevista com o guru dos Bancos Digitais, Brett King

Finnovation recebeu para um bate-papo o guru Brett King, autor de cinco livros sobre o tema Bancos Digitais e Fintech, entre eles Bank 3.0 e Breaking Banks, onde ele fala da disrupção provocada pelas startups de Fintech no segmento de Serviços Financeiros.

Finnovation: No Brasil, o mercado financeiro tem uma alta concentração, que pode deixar os grandes bancos numa posição relativamente confortável em relação a uma eventual ameaça das startups de Fintech. Como você vê esta atitude? 
BK: É muito comum, até mesmo nos EUA, que os incumbentes reajam desta forma. O pensamento no início era de que as startups de Fintech não representavam uma ameaça, porém, as coisas mudaram e agora os grandes bancos vêem as Fintechs de uma forma diferente. Não apenas pelo valuation que atingiram, mas pela tração na curva de aquisição de clientes e pela capacidade de inovar de forma mais rápida e barata que os players tradicionais. Dou um exemplo: um grande banco investiu de 2007 até hoje U$3 bilhões em seu projeto de mobile. Se você imaginar o que uma startup de Fintech poderia fazer com este dinheiro, fica muito clara a diferença. Com isso, eles começaram a pensar: nós não conseguiremos fazer isso tão bem e tão rápido quanto uma startup.

Finnovation: Você já teve vários encontros com grandes bancos brasileiros. O que você diz a eles?
BK: Eu procuro passar mensagens curtas e simples. Por exemplo, o que sabemos sobre o futuro resume-se a três pontos:
1) o futuro dos bancos não inclui o papel e/ou assinaturas;
2) 99% das Fintechs têm sua receita vinda do canal mobile;
3) as startups de Fintech conseguem desenvolver produtos de forma muito mais barata e rápida que uma grande instituição financeira.

Finnovation: E qual é a reação deles?
BK: É comum eles olharem pra mim e pensar: ele não entende a complexidade de se mudar todos os processos existentes, a ponto de se tirar o papel. Mas aí eu digo a eles que o que eles precisam entender é que em todo o mundo existem hoje cerca de 20.000 startups de Fintech e nenhuma delas pede um formulário preenchido num papel ou um documento impresso assinado. E aí de repente a ficha cai e aí eles começam a pensar que o tamanho ou market share poderão não ser uma vantagem competitiva no longo prazo.

Finnovation: Uma análise muito comum é de que boa parte das startups de fintech mais bem sucedidas até hoje não passaram de poucas centenas de milhares de clientes, enquanto que os bancos têm em suas bases dezenas de milhões de clientes. Você certamente já ouviu comentários assim, certo? Qual a sua visão?
BK: Claro, ouço isso com muita frequência, afinal de contas o Moven tem 150.000 clientes, contra o Chase e o Bank of America, que têm 80 milhões de clientes. Gosto de enxergar estes números de uma outra forma: o meu custo de aquisição de um novo cliente é de cerca de 5 dólares, enquanto o mesmo custo para o Chase é de 350 dólares. Quanto tempo você acha que vai levar para o mercado perceber que eles devem investir no Moven e não no Chase?

Finnovation: Como você vê a atuação dos Órgãos Reguladores no mundo, no que se refere às inovações trazidas pelas Fintechs?
BK: No último ano, vi um enorme interesse dos Reguladores por este tema, como nunca antes havia acontecido. Fui chamado para conversar com reguladores de diversas partes do mundo, como EUA, Europa, Rússia, além de vários outros países e posso dizer que há uma linha de raciocínio muito semelhante entre eles: eles querem entender como fazer a transição para este novo mundo, permitindo que as Fintechs inovem, mas entendendo o que está acontecendo, para que não se corram riscos. Não ouvi de nenhum regulador uma intenção de parar a inovação. Ao contrário, eles entendem que para a economia continuar competitiva, precisa haver inovação. O entendimento é de que eles não devem definir a inovação, porque este não é o negócio deles, eles não são bons nisso. Mas entendem que a competitividade da economia depende desta capacidade de inovar e cabe a eles fornecer as diretrizes para que isto aconteça. Não vi até hoje, em nenhum regulador, evidências de que querem proteger os incumbentes. Ao contrário, vejo uma disposição em estimular para que bancos e Fintechs trabalhem em colaboração, os primeiros ajudando no entendimento da importância do Compliance e as Fintechs empurrando as inovações.

Finnovation: Você concorda que as Fintechs estão fragmentando a experiência nos serviços financeiros?
BK: Sem dúvida! As Fintechs estão fragmentando o modelo de banco universal e isto está associado ao comportamento dos millenials, porque esta geração está em busca de aplicativos que ofereçam a conveniência que buscam, em todos os produtos. O modelo tradicional de diversos produtos numa mesma cesta, segmentados de forma demográfica, não atende aos anseios desta geração. Estes jovens tendem a usar diferentes aplicativos para diferentes produtos.

Finnovation: Como você vê o futuro dos bancos diante da disrupção das startups de Fintech?
BK: Nos EUA, eu acredito que 1/3 dos bancos vão simplesmente sumir do mapa nos próximos dez anos, porque o modelo tradicional, baseado em agências, vai se tornar deficitário e insustentável.