As criptomoedas e o fim da corrupção

 
As inovações sempre enfrentam resistências. E estas resistências ganham força sob a forma de “mitos”. Estes mitos nem sempre são verdades, porém são rapidamente disseminados, independente de seus fundamentos científicos.
 
Quando o forno de microondas foi lançado, na década de 70, espalhou-se o mito de que a proximidade a ele poderia provocar câncer. Os especialistas logo vieram a público para explicar que a tecnologia aquecia os alimentos através da produção de radiação não ionizante. Isto fazia com que as moléculas de água vibrassem, produzindo calor, tendo como efeito o aquecimento dos alimentos. Não adiantou. Até hoje, décadas depois, ainda há pessoas que desconfiam que ele possa provocar câncer.
 
Esta resistência não se restringe à tecnologia. Quando o café foi introduzido, o chá era a bebida dominante. O café foi então adotado por imãs do Oriente Médio, que precisavam ficar acordados para iniciar as preces nos horários corretos. Isto gerou uma enorme reação e, durante séculos, espalhou-se a crença de que o café afetava a fertilidade do homem. Somente no século XVI é que a bebida venceu este mito, passando a ser produzida e amplamente consumida na Pérsia, para em seguida ganhar o mundo.
 
Segundo o professor de Harvard, Calestous Juma, autor do livro Innovation and its Enemies, as pessoas não têm simplesmente medo do novo, como se costuma pensar. Segundo ele, as pessoas têm medo da perda que o novo provoca. E esta perda, seja ela percebida ou real, pode ser uma parte de sua identidade, de seu estilo de vida ou de sua segurança econômica. Juma identifica também três grupos que se opõem à inovação: aqueles com interesses comerciais nos produtos existentes, aqueles que se identificam com os produtos existentes e aqueles que podem perder poder em decorrência da mudança.
 
É exatamente isto que estamos vivendo hoje com o advento das criptomoedas. Vários mitos tem sido disseminados, com o objetivo de minar o potencial de impacto desta nova tecnologia. E, curiosamente, talvez o maior deles esteja justamente relacionado a uma de suas maiores fortalezas: o Mito do Anonimato.
 
O mito do anonimato pressupõe que as transações com criptomoedas são anônimas e que este fato possibilita o seu uso para atividades ilícitas, dificultando a identificação da origem e destino das transações. Assim, seria impossível garantir o cumprimento das leis anti lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo e as criptomoedas seriam um terreno fértil para o crime.
 
Ora, isto é o mesmo que atribuir a uma arma a responsabilidade por um crime ou a um carro a responsabilidade por um atropelamento. Um bitcoin é tão anônimo quanto uma nota de um real ou dolar. Ambos são instrumentos ao portador. Se os bancos aderissem às criptomoedas, as normas de compliance estariam sendo igualmente cumpridas para as moedas convencionais e para as criptomoedas. No dia em que os países regulamentarem o seu uso, é muito provável que isto aconteça. Os processos deknow your client para se comprar criptomoedas serão equivalentes aos atuais, assim como as prevenções à lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. No entanto, haverá uma grande e fundamental diferença: a capacidade de rastreabilidade das criptomoedas é incomparável à das moedas convencionais. Por ser descentralizada e inalterável, todas as transações ficarão registradas e poderão ser auditadas com uma facilidade e precisão muito maior. Isto significa que, pela primeira vez na história, teremos condições técnicas de erradicar a corrupção e o financiamento de crimes. 
 
Ou seja, neste caso o mito não é apenas falso; ele enseja ocontráriodo que a tecnologia permite. Ao se compreender que o bitcoin, ou qualquer outra criptomoeda outoken, não são na verdade moedas nem ativos financeiros, mas sim um software que pode representar um valor em qualquer tipo de transação, pode-se alcançar a extensão da transformação a que estamos prestes a viver. Uma transformação que não é pequena; que, no limite, poderá substituir as moedas nacionais como conhecemos hoje. E que daqui a algumas décadas poderá ser tão comum quanto usar o microondas ou tomar café. E sem medo de causar câncer ou infertilidade.