Como os Bancos Centrais estão reagindo ao Bitcoin

No momento em que este artigo for publicado, é possível que o Bitcoin já tenha atingido a cotação de U$20 mil. Num ano em que ele começou valendo U$1 mil, os Bancos Centrais dos principais países do mundo não se furtaram a manifestar suas posições em relação ao que pode ser considerado uma possível nova ordem do sistema financeiro global.
 
Em recente artigo no site da Bloomberg, Eric Lam fez um resumo das posições assumidas publicamente por cada Banco Central.
 
Estados Unidos: Jerome Powell afirmou que governança e gestão do risco serão pontos críticos daqui pra frente. Disse que há desafios significativos para a emissão de uma criptomoeda pelo governo americano e que privacidade é uma das preocupações. E, numa última conversa no Senado americano, afirmou que o tamanho deste mercado ainda não preocupa.
 
Europa: o Banco Central Europeu tem sido um dos mais enfáticos nas críticas às criptomoedas, alertando constantemente sobre os riscos de se investir nelas. Em setembro, seu Vice-Presidente Vitor Constancio comparou o bitcoin às tulipas holandesas do século XVII (veja mais aqui: http://braziljournal.com/bitcoin-nao-e-tulipa-4-fatores-que-nos-fazem-resistir-a-inovacao ).
 
China: a China deixou claro que quer ter total controle sobre as criptomoedas. Reprimiu as exchanges e os ICOs e fala em emitir uma criptomoeda oficial do governo chinês.
 
Japão: Haruhiko Kahoda, o presidente do Banco Central Japonês declarou em outubro que não há planos iminentes do país lançar uma moeda digital, embora seja importante se aprofundar nos estudos.
 
Reino Unido: o presidente do Banco Central da Inglaterra Mark Carney afirmou que as criptomoedas são parte de uma potencial revolução do mundo financeiro. A instituição tem discutido o tema de forma não dissociada de Blockchain, que enxerga como uma tecnologia aliada na batalha contra cyber ataques.
 
Índia: o Banco Central da Índia considerou o uso de criptomoedas uma violação das regras de bolsas estrangeiras, visto que considera um canal para lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Entretanto, o Banco Central promove em paralelo estudo que busca avaliar se criptomoedas emitidas por um banco central global poderiam trazer benefícios para a sociedade.
 
Brasil: o Banco Central do Brasil tem sido um grande fomentador na inovação, nunca esquecendo de seu papel maior, que é a garantia da estabilidade do sistema. Em comunicado sobre o tema em Novembro, afirmou que não vê risco imediato para o sistema financeiro, mas mantem-se alerta para o desenvolvimento e uso das criptomoedas.
 
Canadá: a presidente do banco central canadense, Carolyn Wilkins, afirmou recentemente, numa entrevista, que as criptomoedas não são formas de dinheiro; devem ser entendidas como ativos ou títulos e tratadas desta forma. Disse ainda que a tecnologia Blockchain deverá trazer uma eficiência muito maior ao sistema financeiro.
 
Coreia do Sul: o foco do Banco Central da Coreia tem sido em proteger os consumidores e evitar que as criptomoedas sejam usadas como uma ferramenta para crimes. O presidente do banco central coreano afirmou que são necessários mais pesquisa e monitoramento.
 
Rússia: a presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina, disse que o país não legaliza esquemas de pirâmide e que se opõe a qualquer forma de dinheiro privado, seja ele virtual ou real. O governo está promovendo uma ação para bloquear o acesso a exchanges de criptomoedas.
 
Austrália: o presidente do Banco Central da Australia, Philip Lowe, declarou recentemente que as criptomoedas parecem ter um apelo maior para criminosos do que para consumidores em geral. Segundo ele, a empolgação com as criptomoedas tem mais a ver com uma bolha especulativa do que com o uso eficiente de um novo meio para pagamentos.
 
Turquia: o presidente do Banco Central da Turquia, Murat Cetinkaya, afirmou que moedas digitais devem contribuir para a estabilidade do sistema financeiro, se bem desenhadas e planejadas. Embora imponham novos riscos para os Bancos Centrais, como o controle da demanda e estabilidade de preços, as criptomoedas, em sua visão, podem desempenhar um importante papel numa economia sem o uso de papel moeda, tornando os meios de pagamentos muito mais eficientes.
 
Holanda: um dos países mais ousados no tema, há dois anos atrás, o Banco Central local criou sua própria criptomoeda, chamada DNBCoin, numa tentativa de entender melhor como o sistema funciona. Numa avaliação após um ano de implementação, o líder do projeto, Ron Berndsen, declarou que Blockchain deverá ser naturalmente aplicado na liquidação de transações financeiras complexas. 
 
Suécia: o Banco Central mais antigo do mundo, o da Suécia, está investigando opções, incluindo a moeda digital e-krona, armazenada em apps em smartphones. Segundo a instituição, a introdução da e-krona não interfere nos desafios de política monetária ao Banco Central.
 
 
Em geral, o que se percebe é um grande desconhecimento sobre o tema. Confunde-se criptomoedas com moedas digitais, criptomoedas com blockchain. E não se vê um debate aberto sobre o potencial de disrupção que as criptomoedas representam. É até natural que seja desta forma, pois tecnologias disruptivas são ameaças a um status quo. E não podemos esperar que os ameaçados tenham a mesma clareza daqueles que estão assistindo de fora a todo o movimento.
 
Aristóteles disse uma vez: “o ignorante afirma, o sábio duvida e aquele que é sensato reflete.” Precisamos neste momento de mais pessoas sábias e sensatas, para que as reações saiam do espaço comum da bolha, da relação com o crime ou com o anonimato, e tantas outras referências que só servem para ofuscar o imenso valor de uma grande revolução em pleno curso.